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domingo, 28 de novembro de 2010

Leticia Wierzchowski - Entrevistas


Eu sou apaixonado pela literatura da Leticia Wierzchowski, acabei de localizar um entrevista publicada em 19 de novembro de 2010 no Saraiva Conteúdo, vide
http://www.saraivaconteudo.com.br/Artigo.aspx?id=474 que reproduzo abaixo para vocês tenham um pequeno contato com esta escritora:

Por Ramon Mello
Fotos de divulgação

A escritora Leticia Wierzchowski ficou conhecida após a publicação do livro A casa das sete mulheres, adaptado como minissérie na TV Globo, em 2003. Além de sorte, ela contou com o talento e a persistência. Antes de publicar suas histórias, Leticia peregrinou em busca de editoras, enviando cópias de seus originais. O primeiro livro, O anjo e o resto de nós, foi publicado em 1998. Desde então, a gaúcha de origem polonesa escreveu 11 livros, entre eles Os aparados, Prata do tempo, O pintor que escrevia e Um farol no pampa.

Dedicando-se exclusivamente à ficção, lugar onde se sente confortável para subverter a realidade e aliviar angústias, Leticia Wierzchowski surge com um novo romance: Os Getka. Nesta história de amor o narrador-protagonista Andrzej, um escritor de origem polonesa, mergulha nas lembranças de Lylia, a mulher por quem ele foi apaixonado desde a infância, montando um caleidoscópio com seu presente, o casamento com Isabela e a afetiva relação com a família. Através de um olhar de um menino, a autora convida o leitor a desnudar suas próprias lembranças de infância no decorrer das páginas.

Leticia Wierzchowski vive em Porto Alegre com os dois filhos e o marido. A entrevista ocorreu em seu apartamento, quando ainda escrevia o novo livro, em julho deste ano. A escritora falou com exclusividade ao SaraivaConteúdo, fazendo um passeio por sua trajetória: a decisão pelo ofício da escrita, a recusa das editoras, os primeiros livros, o preço do sucesso e o novos trabalhos, como a adaptação cinematográfica de O tempo e vento, de Érico Verissimo.

Seu primeiro livro O anjo e o resto de nós foi publicado em 1998. Como foi esse início?

Leticia Wierzchowski - Minha família nunca foi uma família de leitores. Lembro que na minha casa só tinha dois romances: O dinheiro, não me lembro o autor, um best seller americano; e Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado. Eles não liam. Mas, desde muito pequena, eu gostava de ler ficção. Eu fazia meus pais me contarem histórias para dormir, a ponto de eles ficarem exaustos. Eu comecei a ser o veículo de entrada de livros lá em casa, sou a filha mais velha. Lembro de quando aprendi a ler: a sensação de liberdade... Não precisava mais ficar implorando para alguém me contar uma história. Minha relação com a palavra escrita, com a ficção, vem desde muito pequena. Depois que fiquei um pouco maior passei a frequentar a biblioteca num clube da cidade. Eu estava sempre pegando dois ou três livros por semana, eu sempre lia. Esse amor pela ficção, pela história inventada, por abandonar a minha perspectiva e trajetória de vida e entrar numa outra, ficcional foi o que me levou a ser escritora. Eu sou apaixonada pela possibilidade da literatura. Revelação da minha adolescência? Gabriel Garcia Marquez foi muito marcante. Eu queria brincar de escrever e pensava que não tinha nada para contar. E no realismo fantástico vemos que é possível transfigurar a realidade cotidiana. Foi uma emoção ler Cem anos de solidão. Quando chegou a época de decisão de vestibular, eu sabia que queria trabalhar com algo que movesse a criatividade. Como a família trabalhava com construção civil chegou-se a uma conclusão lógica: arquitetura. E fui... Foi uma decepção, para todos da minha casa. [risos] Abandonei, nem tranquei a matrícula. Minha mãe, de origem polonesa, ficou muito decepcionada. Meu pai não, ele tinha uma visão mais ampla, dizia: "Eu sei que você tem talento, só não sei pra quê!" [risos] Fiz vários vestibulares: medicina, direito, publicidade... Mas resolvi montar uma confecção, como eu desenhava bem... Eu estava em busca de algo que tivesse relação com a criatividade. Minha mãe: "Ufa!" Foi nessa confecção que decidi que queria escrever. Minha sócia saiu de licença maternidade e me deixou sozinha com a burocracia administrativa. Um dia eu estava esperando uma pessoa para fazer um acerto, não tinha nem computador, enfiei uma folha na máquina de escrever e comecei a registrar uma história. Me lembro da sensação de liberdade, naquele momento que eu não precisava de nenhuma regra, régua, compasso, tesoura, tecido... Eu vivia cheia de fiapos de tecido, manuseando panos. Eu podia fazer qualquer coisa com a aquela máquina [de escrever] e o silêncio. Comecei a ficar todos os dias depois do trabalho para escrever a história. Então me deparei com uma questão: "Eu estou gostando mais do pós-trabalho do que a confecção! Não quero mais isso..." Meu pai me chamou para trabalhar com ele, fechei a confecção. E passei a escrever com mais dedicação. Essa história que comecei lá depois virou um romance publicado, A prata do tempo (1999).

Um livro que tem muito de realismo fantástico...
Leticia Wierzchowski - Sim. E O anjo e o resto de nós (1998), que foi meu livro de estreia. Minha família era tão distraída, passei meses escrevendo o livro... O computador ficava na sala, eles ficavam assistindo a novela e eu colocava um fone no ouvido. Um dia falei: "Escrevi um livro!" Eles: "Mas quando?" [risos] Fazia oito meses que eu estava escrevendo o livro enquanto eles viam a novela...

Foi difícil publicar? Você já foi recusada por editoras?
Leticia Wierzchowski - Eu fui muito recusada! Fui tão recusada... Eu escrevia tanto... Eu me demiti do trabalho do meu pai porque eu queria ser escritora. Publiquei primeiro por uma editora aqui do Sul. Mandei [originais] para grandes editoras do Brasil várias vezes. A ponto de, um dia, alguém da editora Objetiva me ligar: "Por favor, Leticia, não manda mais seus originais porque eu já tenho vergonha de negar. Porque a gente não vai publicar o livro de uma escritora jovem, sem indicação. Não manda mais!" Pensei: "Bom, esse caminho não vai dar certo".


Como você reagiu?

Leticia Wierzchowski - Era muito desesperador. Mas eu já fiz muitas maluquices. Uma vez, peguei todo o meu 13 salário e tirei de xerox de uma novela que eu tinha escrito para televisão. Botei tudo na mala e fui para o Rio de Janeiro distribuir aquele xerox de 800 páginas. Graças a Deus que colocaram todos os exemplares no lixo. Eu tinha muito desespero, trabalhava para tentar me tornar escritora.

Até você conseguir publicar por uma editora de Porto Alegre...
Leticia Wierzchowski - Em Porto Alegre tem um edital da Prefeitura que se chama Fundo Pró-Arte, eles dedicam uma verba para obras artísticas de moradores da cidade. Publicar um livro é barato, eu sabia que se quisesse publicar era fácil. Mas eu nunca incorri nesse erro porque não temos como fazer distribuição. E, depois, chega num veículo sem nenhuma recomendação e ninguém lê. Fui selecionada e ganhei o custo da edição. Então, uma editora, que já tinha me negado, resolveu me publicar.

Assim como muitos escritores do Sul, você fez a oficina literária do Luiz Antonio de Assis Brasil. Como foi a experiência?

Leticia Wierzchowski - Fiz. O Assis Brasil é muito generoso, um grande professor. Enquanto eu trabalhava com meu pai, me inscrevi na seleção da oficina do Assis Brasil. Lembro que levei três romances. Eu era muito maluca, escrevi o dia inteiro. Nesse período eu escrevi O anjo e o resto de nós. Não por influência do Assis Brasil ou da oficina, eu já estava com essa ideia. O que mais me marcou na oficina foi aquele convívio humano, até então eu me sentia um "patinho feio". E sempre brinco dizendo que a literatura me desencalhou...

A Martha Medeiros enviou seu primeiro livro para um amigo...

Leticia Wierzchowski - Martha é colunista no O Globo, mas antes ela escrevia no Zero Hora. Quando meu livro saiu, ela leu, gostou e escreveu um texto super elogioso. E o Marcelo é muito amigo dela, se conheceram na publicidade. Ela comprou o livro e falou para ele: "Você tem que ler uma escritora nova, a Leticia". Ele leu e me enviou um e-mail, foi a primeira mensagem de um leitor. Casei com o primeiro leitor que me escreveu [risos]

E vocês publicaram um livro com mensagens de e-mails como lembrança de casamento.

Leticia Wierzchowski - Entre os convidados do casamento estava o Ivan Pinheiro Machado, editor da LP&M, que havia publicado A prata do tempo. Ele se interessou em editar o primeiro livro de troca de e-mails publicado no Brasil. Foi uma experiência, mas não quisemos republicar.

Sobre A casa das sete mulheres: como surgiu a ideia de escrever o livro?

Leticia Wierzchowski - Tem um autor gaúcho, que mora em Florianópolis, Tabajara Ruas, um dos grandes autores brasileiros vivos. Ele tem livros lindos: O amor de Pedro por João e Os varões assinalados. A história de A casa das sete mulheres surgiu da leitura de Os varões assinalados, que primeiro foi publicado como um folhetim em um jornal. Quando saímos para lua de mel, eu e Marcelo, compramos livros... [risos] Minhas irmãs: "Não é possível! Vocês levando livros para a lua de mel..." [risos] E Marcelo leu antes Os varões assinalados, um livrão de 600 páginas, e disse: "Eu não vou falar nada pra ti, mas tem uma história nesse livro que acho que tu poderias contar". Eu li o livro e fiquei impressionada, é avassalador. É um romance que conta a Revolução Farroupilha através dos homens, os varrões que fizeram a guerra. Só que tem um paragrafinho que o Bento Gonçalves levava o Giuseppe Garibaldi para uma instância, para um jantar, apresentar a família, e falava: "Agora você vai conhecer a casa das sete mulheres". E, rapidamente, mostrava que Garibaldi trocava uns olhares com a Manoela [de Paula Ferreira]. E citava uns nomes, que davam sete... Nunca tinha parado para pensar na Revolução Farroupilha e muito menos no ponto de vista de uma mulher. Quando peguei o romance do Tabajara e me deparei com personagens que estudamos na escola, nomes de ruas, que foram humanizados, fiquei impressionada. "Isso é um filme!" Então liguei para o Tabajara: "Taba, eu posso escrever uma história pegando o mote dessa passagem?" Ele falou: "Claro! Imagina, que legal" O José Guimarães já escreveu uma novela curta que chama Amor de perdição, um breve encontro entre Manoela e Giuseppe Garibaldi. Nas memórias do Garibaldi, ele falava sobre ela... Eu saí atrás. A história que eu queria começar a contar era a história da Manoela: uma mulher bonita, de uma família rica e importante do Rio Grande do Sul, que se apaixona por um aventureiro. Garibaldi quando chegou aqui [em Porto Alegre] não tinha ido para Itália fazer toda campanha italiana, ele era um cara com a cabeça a prêmio na Europa. Por causa dessa paixão, Manoela morre virgem e louca, vestida de noiva, num sobrado, chamando por ele. Isso me impressionou; daí comecei a escrever o romance. Nesse meio tempo, me mudei para São Paulo, e me deparei com uma questão: eu tinha quatro livros publicados, mas todos por editoras gaúchas. Eu chegava a São Paulo e não encontra um livro meu para vender. O próprio Tabajara me indicou para Record, a Luciana Villas-Boas gostou do meu trabalho e publicou de cara uma reedição de O anjo e o resto de nós. Eu falei: "Talvez você tome um susto, se você não quiser essa história não tem problema nenhum. Estou escrevendo uma revolução do século XIX contada pelo ponto de vista feminino. Não sei se vai ter alguém que queira ler". Ela riu e falou: "Me dá esse livro para ler". Ela leu e logo depois falou: "Acho que esse livro vai fazer muito sucesso. Inclusive, acho que esse livro vai para a TV. Vou publicar". Ela foi muito visionária. Terminei o romance e a Record publicou em abril [de 2002]. A carioca Lúcia Riff, minha agente literária, enviou meu livro para a [TV] Globo. Não sei que engrenagens se moveram... Maria Adelaide Amaral estava fazendo uma adaptação de uma minissérie, O capitão mouro [de Georges Bourdoukan] e por algum motivo perdeu os direitos do trabalho, eles ficaram sem nada para colocar na grade. Uma coisa rara porque, às vezes, a Globo compra os direitos e passa 20 anos até levar ao ar, como Mad Maria [de Márcio de Souza, adaptado por Benedito Ruy Barbosa]. Eu publiquei meu livro em abril e em setembro recebi um telefonema da minha agente dizendo que eles queriam comprar os direitos para a minissérie.

Você participou dessa adaptação?

Leticia Wierzchowski - Não. A Maria Adelaide Amaral e o Walter Negrão foram os roteiristas. Me pediam para esclarecer dúvidas, mas a adaptação era deles.

Ficou satisfeita com o resultado?

Leticia Wierzchowski - Assim... Claro que fiquei, né? É um sucesso inegável A casa das sete mulheres, tanto que reprisaram pela terceira vez. Inclusive do ponto de vista publicitário, foi a minissérie que deu mais lucro para a Globo. Evidente, temos que saber que estamos trabalhando com energias diferentes. Estou trabalhando como roteirista hoje, um trabalho grande, e eu sei que são respirações diferentes, outro formato.

O que mudou em sua carreira após o sucesso da minissérie?

Leticia Wierzchowski - Para contar uma história não muda nada. Eu escrevo por uma necessidade própria. Por isso minha literatura é muito dissociada da minha realidade cotidiana. Nunca vou escrever um livro que passa aqui na [rua] Aurélio Bittencourt... Gosto de me ausentar e viver outras experiências. O que mudou? Eu me tornei muito mais tímida. Fazer muito sucesso gera muita animosidade.

"No Brasil o sucesso é ofensa pessoal", declarou Tom Jobim. Você é uma mulher bonita e vende muitos livros. Você sente preconceito no meio intelectual?
Leticia Wierzchowski - Sim, quando aconteceu o sucesso de A casa das sete mulheres. Certa animosidade latente de pessoas que estavam fazendo o mesmo que eu e não tinham tido sorte... Não sei como chamar, eu acredito na sorte. Os judeus fazem uma coisa linda na cerimônia de batismo das crianças, desejam que tenham sorte na vida. Acho fundamental. Fui muito pisoteada nesse período, eu era muito desprotegida. Então, me tornei mais tímida. Outra coisa que carrego até hoje é um rótulo de ser uma escritora de média categoria por escrever textos que podem ser adaptados para a TV. Entende? Fazer sucesso para algumas pessoas é escrever mal.

E seu novo livro? Em que você está trabalhando no momento?

Leticia Wierzchowski - Estou trabalhando na adaptação para o cinema de O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, o primeiro volume, O continente. Eu e o Tabajara estamos trabalhando nessa obra muito querida para o Rio Grande do Sul. Uma responsabilidade. E estou escrevendo um romance que está muito insipiente ainda... Fazendo roteiro, com filho pequeno, uma fase muito espraiada. Eu trabalho em casa, quando vou matar um personagem minha funcionária diz: "Ah acabou o açúcar". Desliga tudo, tenho que ir lá comprar, não tem jeito. Eu vou lançar um romance chamado Os Getka, que é uma história de duas famílias polonesas. Um romance curto, uma história de amor. É difícil falar sobre um livro que ainda está nascendo para gente. Escrever é como começar um relacionamento amoroso, você tem que cortejar aquela pessoa, entender, descobrir, até entender... A gente ainda está ficando, eu e essa história... [risos] É uma história do amor pelos livros. Se passa na Segunda Guerra, é um personagem que vai resistindo a tudo pelo amor pelas histórias.

O que dizer ao jovem que deseja se tornar um autor?

Leticia Wierzchowski - Eu diria, escreva! Às vezes, eu recebo e-mails de jovens: "Ah, eu tô com uma ideia..." Você tem que ter 300 ideias para uma delas ser publicada. Então, escreva! E persistência é fundamental em qualquer profissão. Se você é advogado e não for persistente não arranja um emprego. Tem que acreditar, ser perseverante e escrever. Principalmente, escrever muito.

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