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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

José Castello - Ribamar


A Editora Record publicou de José Castello - Ribamar que tem a seguinte sinopse:


“Esse menino sofre dos nervos”, é um Sampaku, “alguém incapaz de ter uma reação adequada ao perigo”, os seus olhos estão desviados, apontam para cima; tem olhos, o menino José, de peixe morto, mas o médico dos olhos diz que está tudo bem e, sim, está tudo bem e tudo mal; a semelhança com os olhos do pai é isso: a única maldição que desejamos, o desejo que mais amaldiçoamos.
O hipnotizador não endireita os olhos do menino, não lhe tira o sofrimento dos nervos; a lâmina não torna o nariz mais discreto, a coisa não resulta com a faca --- mas há isto: a sensação de que o nariz não está bem, de que os olhos erram, de que a posição no mundo não é a correta --- está a tímida peça de xadrez perdida no tabuleiro de um outro jogo.
Carta ao pai que acompanha a carta ao pai de Kafka. Kafka, o escritor minhoca; escreve como se rasteja e poderemos pensar que em parte é isto: trata-se de ver se os traços que o nosso rastejar deixou atrás conseguem ser decifráveis, se foram transformados ou não num livro ou se são, afinal, como os gatafunhos ilegíveis do velho demente de Ribamar, que é cego e por isso não precisa de escrever nada que se entenda.
Em Ribamar aproveita-se uma queda para avançar; rastejar não é afinal assim tão mau: é o avanço de alguém que caiu e não quer, ou não consegue, levantar-se. O golpe que o derrubou foi demasiado forte --- e nascer é um pouco isto: um golpe de que por vezes só recuperamos muitas décadas depois.
E ainda a visita à tia louca que imita as galinhas e talvez escreva no chão sim; sim que é, apesar de tudo, uma das mais belas palavras, mesmo que não tenha destinatário ou assunto, mesmo que não haja questão prévia. E é isso mesmo: à distância, do sítio de onde conseguimos ver, o que parece que Castello escreve no chão é um sim, e este sim talvez seja dirigido ao pai, um sim que também aparece depois de pergunta nenhuma. Trata-se em Ribamar, escreve Castello, de “tomar posse de meu pai”, como se o pai fosse “um cargo público ou um pedaço de terra”. Não se trata de entender, de retomar ou reconstruir “as ruínas que ferem mas não assustam”, trata-se apenas de dizer um sim, que não é de obediência, um sim que não vem de lado nenhum mas ali fica. Quando o menino José se sentava entre as plantas, para que não o vissem --- esse sentar era também já um modo de dizer sim.
Ler é expor-se --- como se escreve nos capítulos Kafkas --- mesmo na leitura mais privada. Ribamar é pois uma coisa que nos interpreta. Este livro, que insiste em nos querer ler, altera então a ordem natural das coisas. Quem escreve está a entrar na nossa intimidade; como sabe ele tanto dos nossos? E talvez por isso nos emocionemos.
E sim, rasteja-se, mas em Ribamar também se avança, passo a passo, muitos metros acima do solo. Também isto, portanto: serenidade na caminhada. Como um funâmbulo que tivesse a certeza de que vai chegar ao fim, e fosse capaz de suportar a tentação do quero descer; funâmbulo que avança, tranquilo, sabendo onde está e quanto falta (12/18, 13/18, 14/18).
Isto, portanto: o máximo de pontos sobre o solo (rastejar) e o mínimo de apoios no solo (o avançar do funâmbulo). Entre os dois momentos, antes ou depois --- a queda, sempre.
Não basta fazer, é necessário salvar o que se fez --- alguém escreveu. E, de certa maneira, é isto que todos os que fomos lidos por este livro exigimos --- o impossível, claro: que quem nos fez nos salve.

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